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A crise dos semicondutores

12 outubro de 2021
 

Nos últimos meses, fabricantes como Volkswagen, Mercedes, Volvo, Grupo Stellantis, entre outros, suspenderam ou restringiram as suas produções em todo o mundo. Um dos motivos é a falta de componentes, em especial de semicondutores. O problema também afeta empresas de outros setores, tais como como Samsung, Apple e outros players ligados ao consumo doméstico.

A origem da crise está na desaceleração das produções de veículos no ano de 2020, no período inicial da pandemia. No entanto, a sua dimensão está relacionada com como (e onde) essas peças são produzidas e com a sua variedade de aplicações.

 

O que são semicondutores?

Os semicondutores são uma classe de materiais (silício, germânio, entre outros) capazes de conduzir correntes elétrica. São matéria-prima para a produção de chips, que são usados nos mais diversos aparelhos eletrónicos, como smartphones, consolas, computadores, etc.

Nos últimos anos a sua utilização na indústria automóvel também cresceu. Hoje, um modelo SUV tipo Peugeot 2008 alberga cerca de 300 chips, sendo tendência a aumentar com a popularização dos veículos elétricos e autónomos.

O 5G também exigirá uma maior disponibilidade deste tipo de componente, pois a revolução da rede vai utilizar muitos sensores e chips que são semicondutores. 

 

O que causou a crise dos semicondutores?

Em 2020, com o encerramento de várias fábricas e a desaceleração da produção, muitos fabricantes suspenderam encomendas dos semicondutores utilizados nos veículos.

Nos meses seguintes, o avanço do home office e da educação à distância impulsionou a venda de aparelhos eletrónicos, como computadores, smarphones e TVs. A produção de semicondutores foi, então, direcionada para esses mercados.

Quando a indústria automóvel aumentou o ritmo de produção, a procura pelos componentes já estava em “crise”. Na prática, é como se voltassem para o fim da fila – e a fila cresceu neste tempo. Além disto, as margens financeiras que os produtores de semicondutores tinham na indústria automóvel, que eram reduzidas dada a dimensão e capacidade de negociação das marcas, aumentaram na oferta doméstica, fazendo com que os fabricantes de semicondutores canalizassem ainda mais a sua produção para este mercado, aumentando assim as suas margens.

Os fatores geopolíticos também afetaram a disponibilidade destes componentes. No final do ano passado, os Estados Unidos incluíram a Semiconductor Manufacturing International (SMIC), a maior fabricante de chips da China, numa lista que restringe o acesso de empresas a tecnologias de ponta desenvolvidas nos EUA.

A cadeia de produção ainda foi afetada por dois incêndios nos últimos meses de 2020. Um em outubro de 2020, numa fábrica da Asahi Kasei Microsystems (AKM), e outro em março deste ano, numa fábrica da Renesas Eletronics, ambas situadas no Japão.

 

Quais são as perspetivas?

Num relatório divulgado em janeiro (relatório completo aqui) a agência de classificação de risco Fitch Ratings citou que os problemas de fornecimento iam continuar por alguns meses e se iriam dissipar no segundo semestre deste ano de 2021. No entanto, as perspetivas que vamos vendo por parte dos construtores é que esta dissipação só ocorra para o 2º semestre de 2022 e ainda sem certezas.

A tendência é que os construtores invistam em formas de aumentar a sua capacidade de produção para atender à crescente procura. Devido à complexidade da produção, a entrada de novos players não seria uma solução no curto prazo. A construção de uma fábrica de semicondutores, pode levar até cinco anos, mas trata-se de um ramo com uma grande barreira de entrada e curva de aprendizagem muito longa. Por outro lado, as empresas que já atuam no ramo têm anunciado vários planos de expansão.

Um exemplo é a Intel, que em agosto anunciou a criação de uma nova unidade de negócio chamada Intel Foundry Services, para se focar exclusivamente na produção de semicondutores.

A iniciativa ilustra outra tendência intensificada pela crise atual: a de investir na expansão geográfica das produções para além da Ásia, mitigando a dependência atual. Em março, a União Europeia anunciou o plano de investir 140 mil milhões de euros no setor digital nos próximos três anos. Um dos objetivos é produzir 20% dos semicondutores avançados de todo o mundo.

Em resumo: existem muitas incertezas que levam a que os construtores automóveis não consigam planear as suas produções e que afetam todo um ciclo que era estável. O prazo de entrega estimado de uma viatura, após a encomenda à fábrica rondava os 45 a 75 dias. Hoje em dia, dependendo da marca, pode ir dos 90 aos 180 dias.

 

Daniel Revez,
Departamento Procurement